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Fonte: Foto ilustrativa gerada por IA

Um mundo cada vez mais cheio de fronteiras

Cresci ouvindo que somos o país da mistura, uma combinação tão especial que não me vejo vivendo definitivamente em nenhum outro lugar do mundo. Cem vezes que tivesse a chance de decidir o país do meu nascimento, cem vezes escolheria nascer aqui, no Brasil.

Somos a mistura de povos europeus, a partir da colonização portuguesa e depois pela vinda de italianos, alemães e espanhóis. Mais tarde, tivemos uma grande pitada de japoneses. Penso que aquele slogan que vendeu muita televisão é bastante correto: “os nossos japoneses são melhores que os japoneses dos outros”. E como não falar dos sírios e dos libaneses, que durante muito tempo chamamos genericamente de árabes, mas que hoje aprendemos a diferenciar.

Tivemos também aqueles que não tiveram escolha e vieram para o nosso país contra a própria vontade. A maioria das pessoas escravizadas que chegaram ao Brasil saiu de Angola e da região do Congo, além da Nigéria, Benin, Gana e Moçambique.

Eles nos deram sua força de trabalho e depois permaneceram aqui, contribuindo para uma diversidade imensa. Uma herança cultural que nos diferencia das principais nações do mundo.

Aprendi cedo que somos generosos, hospitaleiros e, principalmente, que não tratamos mal quem vem ao nosso país em busca de uma nova opção de vida. Em processos migratórios mais recentes, recebemos haitianos, bolivianos e venezuelanos, que deixaram sua terra para tentar a sorte aqui.

Minha família é fruto da imigração. Temos parentes portugueses e alemães. Pelos dois lados houve renúncia total à nação de origem. Cresci sem grandes influências diretas ou mesmo sem olhar constante para os povos onde nossa história familiar começou.

Entendo que ninguém abre mão da sua terra natal e da sua origem sem passar por uma grande ruptura. Lembro de conversar com um imigrante sírio que tinha uma ótima posição social em seu país, mas que fugiu da guerra e deixou para trás sua família, sua identidade, sua profissão e um pouco da sua essência.

Um imigrante de primeira geração perde totalmente a sua identidade. No país que escolheu para viver, ele sempre será um estrangeiro. Ao voltar ao seu país de origem para visitas, também será tratado como estrangeiro.

O motor que leva alguém a buscar um novo lugar, uma nova terra e um novo desafio é a oportunidade de construir uma vida melhor.

Os Estados Unidos, a Europa e o Japão sempre exerceram esse fascínio sobre nosso povo. Muitos brasileiros renunciaram à própria identidade para buscar um futuro melhor. Gente que deixou uma vida aqui para apostar tudo no amanhã. Em muitos casos, os primeiros descendentes investem pesado na adaptação, pensando em construir uma base segura para seus filhos, mas certezas nunca existem.

Hoje vejo países perseguindo imigrantes e expulsando pessoas que viveram em suas terras por décadas. Vejo uma crescente impaciência com aqueles que deixaram sua terra natal em busca de um novo começo em outra cultura. Pesquisas recentes mostram que o mundo se tornou menos tolerante ao imigrante, muito mais por medo e por narrativas políticas do que pela presença real dessas pessoas.

Vivemos tempos de menos generosidade. Quando temos muito, é difícil ser generoso, mas o curioso é que, quando não temos nada, torna-se mais fácil partir o pão e dividir. Descobri há pouco que a generosidade que sempre encontrei na casa de pessoas simples decorre, em grande parte, do fato de que elas não sentem medo de perder. É o medo de perder que nos faz egoístas.

Penso que algumas decisões que estão sendo tomadas trarão um profundo sentimento de antipatia e distanciamento. Penso assim pois me lembro de um conto inserido em um filme que aprecio muito. Em português, o título foi Golpe do Destino. O original é The Doctor, de 1991. Neste drama, há uma bela história na fase final do filme. Não encontrei o texto original, portanto esta é uma transcrição baseada na memória.

Havia um fazendeiro que passara a vida inteira lutando contra os animais que invadiam suas terras e plantações. Buscando uma solução, preparou um novo espantalho, grande e assustador, e o colocou no meio da propriedade.

A estratégia funcionou. Os animais não voltaram mais. Não invadiam suas terras. O novo espantalho resolveu o problema.

Com o tempo, ele percebeu que estava completamente só e começou a sentir falta da presença dos animais em suas terras. Foi quando teve uma ideia. Retirou o espantalho e ficou ali, de braços abertos, chamando os animais de volta durante boa parte do dia.

Mas nenhum animal apareceu…

Eles estavam assustados demais com o novo espantalho que o fazendeiro havia criado.

(imagem do fazendeiro feita com IA chatgpt)

Quando vejo algumas medidas tomadas para dificultar a imigração, lembro dessa história. Por trás desses sinais, desses espantalhos que estão sendo erguidos, cria-se uma antipatia que se estende à cultura e à convivência.

Entendo o medo da escassez e de um futuro complicado, mas eu não deixaria de lado a visão de terra das oportunidades e do sonho. Não abriria mão da admiração, pois isso também é um traço da identidade desses povos.

Espero que algumas grandes nações não precisem, no futuro, retirar o espantalho e voltar ao centro da plantação para chamar os animais de volta.

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