Entre em qualquer reunião virtual hoje e faça a chamada. Se houver três seres humanos na sala, pode contar: haverá pelo menos seis “participantes” na lista.
São os assistentes de inteligência artificial gravando, transcrevendo e gerando “insights estratégicos” em tempo real. Cada executivo traz o seu robô de estimação para a mesa, como quem leva um advogado para um depoimento na polícia.
A promessa do marketing de tecnologia era linda: ninguém mais precisaria prestar atenção na conversa ou anotar nada, porque a máquina entregaria uma ata impecável ao final.
O que esqueceram de avisar é que a inteligência artificial sofre daquela mesma doença que afeta a humanidade desde o início dos tempos: o problema de interpretação.
O resultado é a criação do maior fenômeno corporativo da década: A Torre de Babel Sintética.
Imagine a cena. O cliente suspira, olha para o teto e diz, em tom de pura ironia: “Com esse orçamento minúsculo que sobrou, dá até para fazer um comercial no Super Bowl, né?”.
A reunião acaba. O robô do Diretor de Mídia resume a frase como “cliente sugeriu corte severo de verba”. O assistente virtual da Agência registra: “Aprovado plano para veiculação no Super Bowl”. Já a IA do VP de Vendas anota: “Expectativa de alto impacto emocional com baixo custo”.
Em cinco minutos, cada executivo recebe no e-mail um resumo customizado pela sua própria IA. Todos leram coisas completamente diferentes, mas todos saíram da sala com a convicção absoluta de que “está tudo alinhado”.
O caos está instalado. O projeto nasce morto, mas o e-mail de acompanhamento veio elegantemente formatado em tópicos.
Se a coisa parasse no mercado publicitário, o prejuízo seria apenas de estresse, refaça e um punhado de cabelos brancos. O problema é aplicar essa mesma “eficiência” em decisões de vida ou morte.
Imaginar engenheiros debatendo a pressão de uma represa, diplomatas negociando um tratado de paz ou cientistas definindo a dosagem de um componente de vacina dá um frio na espinha.
Um “pode ser” interpretado pelo bot como “deve ser”, ou um aviso de “não abra a válvula agora” resumido pelo algoritmo como “válvula pronta para abertura”, e pronto: o mundo acaba não por um ato de maldade, mas por uma alucinação de software.
Para quem trabalha com comunicação, branding e negócios, o diagnóstico é urgente. A tecnologia criou atalhos fantásticos para registrar dados, mas minou a única coisa que realmente fecha negócios e constrói marcas: a capacidade humana de ler o não dito.
O tom de voz, o sarcasmo, a pausa dramática e o olhar de lado continuam sendo a linguagem universal da tomada de decisão. Delegar a interpretação das intenções humanas a um algoritmo que nunca tomou um café ruim na vida não é produtividade; é preguiça estratégica.
A reunião que salva o negócio não é aquela que o seu robô gravou. É aquela em que as pessoas de carne e osso olharam no olho, entenderam a mesma coisa e tiveram a coragem de perguntar: “Peraí, é isso mesmo que a gente combinou?”.
Antes que o próximo resumo de IA destrua a sua campanha, ou o mundo, experimente voltar ao básico: desligue o gravador e converse com quem está do outro lado da tela.
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