Estudos recentes apontam que a solidão é um dos maiores problemas do nosso tempo. É provável que você já tenha lido que vivemos uma epidemia de solidão, mas imagino que, se você se esforçar, deve ter amigos para citar que estão cada dia mais reclusos, ou até mesmo se surpreender com a percepção de que você mesmo tem vivido uma vida muito mais solitária do que alguém da sua idade no passado.
Entendo que novas práticas e comportamentos modernos estão acelerando este fenômeno. Podemos citar o trabalho remoto, que reduziu o tempo de contato com colegas no escritório em alguns dias, ou mesmo, para alguns, quase que totalmente. Penso que a consequência direta é que, com o passar do tempo, nosso cérebro se acostuma, vamos perdendo alguns protocolos sociais.
Fiquei pensando no assunto e busquei perguntas, e a principal que me motivou a escrever é: o que estamos perdendo com isso? O ganho já sabemos: mais conforto, menos tempo no deslocamento, mais tempo para fazer outras coisas em nossa vida.
Hoje temos menos almoços com os colegas e, com isso, menos informações sobre a vida cotidiana deles. Com apenas fragmentos da vida de nossos colegas, nos falta intimidade e, com isso, nossas conversas acabam limitadas às tarefas, clientes e relatórios. Penso que vivemos hoje relações automatizadas que tiram todo o carinho e, principalmente, toda a diversão do contato presencial. Pense num colega que entrou na sua equipe recentemente e veja se faz sentido. Será que você sabe, de fato, algo dele além do universo do trabalho?
Fiquei pensando na importância da amizade. Muitas amizades que tenho têm uma relação direta com meu trabalho e com períodos em que trabalhei em algumas empresas. Devo dizer que tenho um bom grupo de amigos, pessoas com quem faço questão de estar. Somos próximos, e posso afirmar que alguns deles sabem, ao ouvir meu alô no telefone, se de fato eu estou bem.
Com o tempo, percebi que amigos vêm e vão. É natural. A grande questão é que é a proximidade que mantém um relacionamento; a distância e a falta de contato acabam reduzindo a importância de uma amizade.
Quando vejo gente que vive só, me pergunto: será que eles sabem o que estão perdendo? Ou, pior, será que eles entendem o preço que podem pagar no futuro? O que perdemos com uma vida solitária?
Pesquisando sobre isso, encontrei um estudo extremamente interessante, seja pela abordagem, seja pelo fato de ser a pesquisa mais longeva que provavelmente temos no mundo. O “Harvard Study of Adult Development”. Durante 75 anos, este estudo acompanhou a vida de 724 homens, ano após ano, perguntando sobre seus trabalhos, vidas domésticas e saúde. Um acompanhamento sem expectativas, mas que ajudou a comparar respostas dos questionários e entrevistas em profundidade com resultados práticos de exames e conversas com os médicos destas pessoas. Aproximadamente 60 dos 724 homens originais ainda estão vivos e continuam participando do estudo. Hoje estão na casa dos 90 anos.
O que mais me impressionou foram os resultados aos quais os pesquisadores chegaram, e o principal deles é: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis.
Sou uma pessoa melhor por conta dos meus amigos. Eles têm a capacidade de extrair o melhor de mim. A alguns deles eu devo horas de escuta, tempo dedicado, atenção e carinho. Alguns deles são referências na minha vida, pessoas tão especiais que decidi que queria ser exatamente igual a eles. Me arrisco a dizer que eles, junto com minha esposa e filhos, são a melhor parte da minha vida.
Quando vejo uma geração de pessoas se isolando, eu me perturbo, pois fico pensando no efeito disso ao longo do tempo. Lembrem-se de que a repetição do hábito cria o costume, e, após 90 dias de uma prática, os estudos mostram que transformamos um comportamento em padrão. E você sabe que todos nós odiamos mudanças.
Se você é parte das estatísticas, busque uma amizade. Fazer amigos não é algo simples, mas o primeiro passo é demonstrar interesse pela vida de alguém. Se os cientistas do estudo acima estão certos, lembre-se: você também estará cuidando da sua saúde.
Nesta próxima semana, esteja presente. Convide um amigo com quem você não fala há muito tempo para um almoço ou jantar.
Dedico este texto aos meus amigos. Não acho gentil listar vocês aqui, mas penso que sabem que estou falando de vocês. Como Emicida me ensinou: quem tem um amigo tem tudo.
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