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Fonte: Reprodução Unsplash

Quando não confiamos em nós

Lembro de momentos complicados, noites difíceis e instantes em que eu hesitava em começar. Quem me vê confiante, falando para grandes grupos, não imagina que sempre existe um momento de coragem em que paro e reflito: será que vai dar certo?
Ele dura poucos minutos, até que eu encontre um rosto amigável na plateia. Aquelas pessoas que bebem nossas palavras, que assentem com a cabeça, generosas em sorrisos e risadas. Elas fazem com que a caminhada seja melhor, pois nos revestem de confiança.

Um querido amigo me indicou para uma palestra muito especial. Ela aconteceu no Uruguai, para um grupo de publicitários, e eu dividiria o palco com dois nomes bastante conhecidos. Para meu azar, ou seria sorte, nunca vou descobrir, eu falaria primeiro, num sábado, seguido por eles.

Lembro muito daquela manhã. Acordei bem cedo, estava preparado, mas ver Átila Francucci, um dos maiores diretores de criação que tive o privilégio de conhecer, e Christina Carvalho Pinto, outra referência absoluta na publicidade brasileira e a primeira mulher a presidir um grupo multinacional no país, entre os que assistiam à minha apresentação, me deixou inseguro.

Respirei e comecei, mas não estava tranquilo. Estava afobado e muito inseguro. Dominava o assunto e já tinha falado dele tantas vezes que poderia seguir no automático, mas a falta de confiança drena nossas forças.

O curso era tremendamente prático, e logo parei para um exercício. Corri para buscar um café. Acho que, se pudesse, teria seguido direto para o quarto. Mas, quando passei pela mesa da Christina, ela me chamou e disse: nós já estamos aplicando as coisas que você falou, veja.

Naquele momento não sabia se era um elogio real ou gentileza. Pouco importou. A generosidade dela me fez seguir, me fez continuar falando. Ali nasceu uma amizade e, depois disso, tivemos algumas conversas.

Um amigo que trabalhou com a Christina havia me contado de uma experiência com ela. Numa importante apresentação para um cliente, após muita preparação e ensaio, um equipamento falhou. Chris pediu a palavra e falou de improviso por 45 minutos. Ao final, foi ovacionada com palmas e a plateia de pé. Meu amigo sabia que ela havia improvisado, pois em nenhum momento da semana ela tinha mencionado aquele conteúdo.

Precisamos de carinho, mas precisamos de confiança. A Chris não precisou me levar ao palco. Eu caminhei até lá e fiz meu trabalho, mas naquele dia ela me presenteou com seu carinho e sua amizade. Com o tempo, percebi que foi um elogio sincero. E talvez agora, se ela ler este texto, entenda como foi importante.

Me considero um especialista no assunto que apresentei naquele dia. Não tinha muitas dúvidas e acumulava anos de experiência falando com publicitários sobre o tema, mas fiquei intimidado e voltei ao Brasil pensando nesse poderoso efeito que tem a perda de confiança em nós mesmos.

Lembrei de atletas brasileiros que falharam. Lembrei de grandes times que perderam. E fiquei imaginando que, talvez, tenha faltado algo generoso em suas jornadas.

Acabei desenvolvendo uma técnica, pois, por 13 anos, a cada semestre eu tinha o desafio de me apresentar para uma turma nova e conquistar sua atenção. Aprendi que existe preparação. A lição que Christina deu ao seu time, falando de improviso, é a maior prova disso: ela só teve confiança para improvisar porque estava preparada.

A sua parte do trabalho é estar preparado. O frio na barriga hoje já não vem para mim, mas pode vir para você. Um copo de água ajuda, e você pode bebê-lo lentamente enquanto respira. A técnica me ensinou que os primeiros minutos são os mais importantes. Tanto para nós, que falamos, quanto para quem escuta. Nós precisamos de confiança; eles precisam gostar do que ouvem. Portanto, capriche. Alguém disse que uma primeira impressão vale muito.

Se falta confiança, treine mais. Não acredito em resultado sem treino e disciplina. Existe sorte, sim, mas sorte é ter o carinho do comentário da Chris, algo que vou guardar para a vida inteira.

Concentração é outro ponto importante. Sempre dedico tempo para me concentrar e me preparar. Sozinho, em silêncio. Uma boa poltrona ajuda muito.

Se mesmo assim faltar confiança, busque ajuda. Um bom psicólogo pode te orientar, ou então um professor de teatro ou de oratória. Lembre-se: tudo é treino.

Sucesso na carreira.

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