Chamamos de “jogar conversa fora” como se fosse desperdício de tempo. Talvez seja justamente o contrário. Posso rodar a cidade para ir almoçar com um amigo só para colocarmos a conversa em dia — um tempo muito especial, que contrasta com a ideia original da expressão, ligada ao descarte de algo sem valor.
Na língua portuguesa, o verbo “jogar fora” está sempre associado a descartar algo. Mas queria provocar você a pensar na importância desse tipo de conversa: sem um objetivo concreto, sem uma decisão a resolver, puramente diversão. Sinto que são os momentos que mais me animam e, em muitos casos, as conversas que de fato ampliam os relacionamentos.
A grande questão é que estamos passando cada vez menos tempo em companhia de outras pessoas. É o que mostra o estudo American Time Use Survey Analysis – Declines in Social Time, publicado em 2022 no National Library of Medicine (PMC). O relatório aponta uma redução concreta nas oportunidades de conversa cotidiana, mostrando que o tempo médio dedicado a estar com amigos caiu de cerca de 60 minutos por dia em 2003 para aproximadamente 20 minutos em 2020. O trabalho remoto reduziu pontos de contato, e a comunicação digital, feita por textos e mensagens de voz, acaba nos deixando cada vez mais sós.
Gosto muito do termo “jogar conversa fora”, pela falta de compromisso e principalmente por ser um tempo de pura diversão, quando não temos preocupação com o relógio e quando, em geral, nos divertimos muito mais.
A psicologia social chama de “small talk” as conversas leves e aparentemente banais do dia a dia. Estudos mostram efeitos reais sobre o bem-estar e o sentimento de conexão entre as pessoas. Um estudo conduzido pelos pesquisadores Nicholas Epley e Juliana Schroeder, da Universidade de Chicago, demonstrou que pessoas que iniciam conversas casuais com desconhecidos relatam maior satisfação, sensação de pertencimento e experiências mais positivas.
A conversa informal tende a melhorar a experiência social e emocional. É um hábito que cria vínculos e reduz a sensação de isolamento.
No tempo em que morei sozinho, percebi um hábito comum entre pessoas que também viviam sozinhas: ligar a televisão quando chegavam em casa. O silêncio da casa vazia parece grande demais quando não temos ninguém para conversar. Percebi que eu mesmo ligava a TV com o objetivo de preencher esse vazio. De forma artificial, o som do aparelho ajudava a quebrar a sensação de solidão.
O problema talvez não seja a falta de importância da conversa, ou a existência de assuntos banais que podem ser descartados sem medo, mas sim a falta de conversa.
Penso que falamos cada vez menos. Vejo pessoas que, mesmo quando estão em ambientes cheios, se isolam conversando com máquinas. Os aparelhos que nos conectam também acabam nos separando.
Vejo falta de paciência para encarar uma conversa por telefone ou uma chamada de vídeo, mas queria estimular você a ser mais resiliente nessas situações. No fundo, talvez jogar conversa fora seja uma maneira de lembrar que nem tudo na vida precisa servir para alguma coisa.
Gosto de pensar que são justamente as coisas menos importantes que nos divertem, que completam nossa vida e nos fazem rir. Muitas vezes, a melhor diversão nasce de conversas sem importância nenhuma. Nenhuma amizade começa numa conversa importante. São os fragmentos de comunicação e contato que criam afeto e relação.
Queria estimular você a gastar mais tempo com as pessoas ao seu redor, sem nenhuma pressão por eficiência. O desafio concreto é simples: jogar conversa fora.
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