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Fonte: Unsplash

O que nos resta é o hoje …

Se te fosse dada a possibilidade de voltar no tempo para qualquer dia da sua vida, qual seria a sua escolha? Talvez você nunca tenha pensado nisso, mas tenho certeza de que já ficou relembrando um dia, ou um período da vida, que você considera especial.

Gosto muito da música “Canção da Família”, do cantor Pedro Valença. É uma composição linda, com uma letra que me inspira muito. Ela toca em pontos tão importantes das lembranças: “Hoje me deu saudade de um tempo que não volta mais”, ou “Eu lembro que a gente costumava reclamar, mas hoje tudo que eu queria era voltar”.

Não sei vocês, mas tenho esse desejo profundo de voltar no tempo. Não sei nem explicar, amo filmes sobre esse assunto e, em grande parte, acredito que isso acontece porque eu adoraria viver essa experiência do voltar.

Na letra, Pedro nos adverte: “Não sei voltar no tempo, o que me resta hoje é o hoje mesmo aproveitar”, ou, na parte que para mim é a mais forte da poesia: “Por que só quando perde aprende a valorizar?”

Perdi meus Pai aos 17 anos, portanto nosso tempo juntos foi curto. Às vezes a dor é tão forte que só consigo traduzi-la em palavras: eu não lembro mais da voz do meu pai. E talvez, se fizer um esforço gigantesco para relembrar os momentos mais especiais com ele, vou chegar à conclusão de que me lembro de muita pouca coisa.

Como Pedro, eu sinto falta de um tempo que não volta mais. Tenho vontade de voltar para dar um abraço sem pressa, ou dizer “eu te amo” tantas vezes até ele se cansar.

Como Pedro, eu sei que não consigo voltar no tempo. Sua música me consola, mas me deixa sempre triste. Lembranças são tudo o que temos. Lembranças são fragmentos que guardamos, e tenho aprendido que elas mudam. Não sou especialista, mas tenho certeza de que, cada vez que as memórias são acionadas, elas mudam. Ganham contornos e, às vezes, perdem contexto.

Pensando nisso gostaria de te vender uma ideia.

Um amigo me contou que conheceu uma família inglesa que tinha um hábito muito bonito de preservar a memória dos parentes que partiram. No dia do aniversário de nascimento de quem se foi, a família se reunia para que todos pudessem compartilhar histórias, lembranças e momentos vividos com aquela pessoa. Assim, as memórias se combinavam e ajudavam os mais novos a compreender a importância de quem já não estava presente.

Ano passado perdemos nossa avó, a mãe da minha esposa, uma perda que sentimos muito. Com a ajuda dela e dos meus filhos, este ano criamos o nosso ritual. Sou fascinado por rituais, pois entendo que eles dão forma aos sentimentos, que são reverências que prestamos ao tempo.

Fizemos diferente. Nosso encontro foi no dia em que a vó Lais se foi, mas teve o mesmo efeito. Cada um de nós lembrou de algo especial: uma experiência, uma fala dela, um jeito, um dia engraçado. E me dei conta da beleza disso. Entendi o valor daquele hábito. Memórias reunidas ressignificam lembranças. Com a ajuda dos outros, a riqueza dos detalhes retorna à nossa mente.

Não me entenda mal. Não quero brincar com o luto, sei que ele é muito sério, mas entendo que só temos isso: as lembranças e a certeza de que, como a música nos ensina, devemos aprender a viver melhor o hoje.

Que nesta semana você dedique tempo a alguém com quem não tem passado muito tempo. Quando estiver com essa pessoa, diga coisas especiais. Diga “eu te amo” até ela se cansar. Abrace demoradamente. Não deixe que a pressa comande o momento. O hoje é tudo o que temos, e vivê-lo bem é dar o valor correto à vida.

Boa semana!

Deixo aqui o link da interpretação do Pedro Valença:

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