Somos parte de nossas referências. Construímos nossa identidade a partir de nossas características e experiências. Quando pequenos somos verdadeiras esponjas sugando tudo e todos à nossa volta. Não é à toa que vamos nos transformando um pouco naqueles que nos rodeiam, que amamos, que convivemos.
Penso que isso é ainda mais evidente no casamento. Se você conhece um casal e teve o privilégio de acompanhar seu relacionamento, vai perceber que eles vão se transformando em uma pessoa só. Isso acontece porque a admiração se transfere para a imitação. Alguém já disse que imitar é uma forma de elogio.
É triste o que vou dizer, mas tive apenas um professor negro. João Claudino foi meu mestre na igreja durante minha adolescência. Tive também um colega negro na escola e na faculdade, Jarbas, uma pessoa muito especial. Me envergonho ao lembrar de algumas brincadeiras, mas conviver com ele foi marcante. Lecionei no ensinou superior por treze anos e em todo esse tempo tive apenas um aluno negro.
Se concordarmos que nossa identidade ganha forma principalmente do encontro de experiências como família, escola, amizades, desafios, perdas, referências culturais e até acidentes de percurso, percebo o quanto tive pouca influência da cultura negra na minha vida.
Com o tempo aprendi a me aproximar desta cultura, porque ela me oferecia um olhar que eu não tive até a vida adulta. Me falta conhecimento, me falta entendimento, mas não me falta vontade de aprender mais. Muito cedo tive a influência de atletas, atores e cantores que me apresentaram referências da cultura africana, algo que a escola me privou.
Lembro de uma expressão horrível que, para mim, era uma forma irônica de me comunicar e, na minha ignorância, até divertida. Quando eu estava diante de algo muito confuso ou desorganizado, eu dizia: parece o samba do crioulo doido.
Precisei estar bem adulto, já com mais de 50 anos, para minha filha Julia me ensinar o tom de preconceito dessa expressão. Algo aparentemente simples, mas que, quando explicado, escancara a forma discriminatória do termo. Amo as palavras porque entendo que sua semântica carrega muito mais que entendimento. Elas constroem crenças, padrões e cultura. Minha filha me explicou que essa expressão era a forma como o homem branco satirizava práticas culturais negras sob um olhar de superioridade. Nunca mais a usei, o conhecimento traz respeito.
O primeiro passo para entender o racismo, para mim, é perceber o quanto não temos proximidade com a cultura negra e suas ancestralidades. Agradeço a pessoas queridas. Alguns são bons amigos, outros são celebridades que nunca conheci pessoalmente, mas que me ensinaram muito. Alguns estão vivos, outros já se foram, mas minha vida não seria a mesma sem a influência deles.
João Diamante, Edu Lyra, Dilma Souza Campos, Thiago Ruivo, Ariovaldo Ramos, Adão Casares, meu professor João Claudino, José Soares, Renata Galiotti, Vinícius dos Reis Mendonça, Beth Holtz, Meia Noite (Marcos Oliveira), meu primeiro chefe na propaganda Jorge Luiz, meu colega de escola Jarbas, Helenice Moura, Lina Moreira, Mirtes Reis, Julia Miranda.
Como não ser influenciado pela genialidade de Pelé, Michael Jordan, Lewis Hamilton, Lázaro Ramos, Nelson Mandela, Adhemar Ferreira da Silva, Cartola (Angenor de Oliveira), Gilberto Gil, Preta Gil, Jair Rodrigues, Taís Araújo, Alcione, Desmond Tutu, Benedita da Silva, Camila Pitanga, Marielle Franco, Denzel Washington, Cuba Gooding Jr., Whoopi Goldberg, Louis Armstrong, Charlie Parker, Morgan Freeman, Djavan, Seu Jorge, Mussum, Will Smith, Tim Maia, Halle Berry, Alicia Keys e tantos outros que me escapam da memória. Imagino que sua lista também seja incrível.
Reverencio Emicida, pois ele me ofereceu educação através de sua música. Ele me ensinou sobre a dor da discriminação, sobre a importância da referência e sobre a força das mães da periferia na construção da identidade de seus filhos.
A primeira vez que escrevi esta lista foi sob o impacto das agressões nos Estados Unidos que deram origem ao movimento #VidasNegrasImportam. Essa foi minha forma de homenagear essa cultura e, principalmente, essas pessoas incríveis que me ensinaram e seguem me ensinando tanto.
Neste 20 de novembro reafirmo minha admiração por suas vidas e por sua luta. Ainda devemos muito à cultura negra, mas fico feliz pelo crescimento da consciência e pelo avanço das conversas.
Continuem caminhando e nos inspirando.
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