Zeitgeist é uma palavra alemã que significa “espírito do tempo”. Se você abrir qualquer rede social hoje, o zeitgeist atual atende pelo nome de vídeo curto.
A ladainha corporativa é sempre a mesma: “Ninguém mais lê nada. O público só quer ver vídeo, o feed tem que rodar rápido, a atenção é de peixe-dourado.“
Repetiram essa bobagem tantas vezes que até gente inteligente como você começou a acreditar que o texto virou uma relíquia inútil.
Mas vamos encarar a realidade com o pé na porta: o vídeo, em sua forma mais rasa, entrega a cena mastigada, o cenário pronto e anestesia a imaginação.
É um consumo passivo, que roda rápido e evapora no scroll seguinte. Absorção zero.
Se a Bíblia tivesse sido lançada hoje em formato de Reels, com edição frenética e efeitos visuais, Deus provavelmente já teria sido transformado em um alienígena por algum filtro barato de inteligência artificial.
O texto, por outro lado, não compete com a imagem; ele a aprofunda. O vídeo tem seu valor indiscutível e o poder da evidência instantânea, uma imagem revela o mundo num piscar de olhos, da precisão de um fato à emoção de um ultrassom.
Mas onde a imagem mostra, o texto explica.
Só a palavra escrita é capaz de articular o raciocínio, costurar a dúvida e dar sustentação a uma grande ideia.
Se olharmos para o retrovisor da humanidade, o mundo não foi moldado por imagens, mas por parágrafos. Impérios foram erguidos sobre constituições escritas à luz de velas.
A história da Europa foi rachada ao meio simplesmente porque um monge chamado Martinho Lutero pregou 95 teses de texto na porta de uma igreja.
Revoluções inteiras estouraram por causa de manifestos impressos clandestinamente. O texto é o código-fonte da civilização.
Enquanto a imagem registra o que já aconteceu, a palavra escrita tem o poder de desenhar o que ainda vai acontecer.
E foi justamente apostando nessa inteligência e no poder de quem lê que, nos tempos áureos da mídia impressa, dois craques com quem tive o prazer de trabalhar: Javier Talavera e Ruy Lindemberg, na época estavam na agência W/Brasil, assinaram um texto primoroso no Jornal Valor Econômico (vale a leitura, procure) com um título antológico: “Tem gente achando que você é analfabeto, e você nem desconfia”.
A mensagem era um manifesto à dignidade do leitor: “Vamos provar que tem gente inteligente lendo anúncios, sim, senhor. Gente que gosta de ouvir uma boa argumentação, de dar risada diante de uma sacada inteligente e de se emocionar. Gente que, antes de ser enquadrada como: Classe B1, sexo masculino, 25 a 55 anos, é gente. E gente não quer ser tratada como analfabeta só porque o mundo ficou mais instantâneo”.
O cientista Carl Sagan descreveu o livro como o único objeto que não depende de bateria, tela ou conexão de internet: você bate o olho em marcas pretas numa folha de papel e, instantaneamente, ouve a voz de alguém que que pode estar por aí ou morreu há mais de mil anos.
Ler é a única viagem no tempo garantida pela mente humana.
As pessoas não pararam de ler; elas apenas pararam de ler bobagens. Quem escreve com alma não disputa três segundos de dopamina barata no feed; constrói um império na imaginação de quem lê. O vídeo pode até dominar o barulho da época, mas o texto continua sendo o dono da história.
Adão Casares
Publicitário “6.0” (na verdade tenho 26 anos + 40 anos de experiência)
Diretor de Comunicação da APP Brasil. Carreira com passagens por: Lew`Lara, Fischer e Justus, Grey Brasil, WMcCann, AlmapBBDO, Leo Burnett e veículos de mídia
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