Quando o jovem Benito Antonio Martínez Ocasio estudava comunicação audiovisual na Universidade de Porto Rico, em Arecibo, e, para pagar os estudos, trabalhava como empacotador e caixa em um supermercado em Vega Baja, talvez não imaginasse que sua vida mudaria tanto a partir de uma plataforma de distribuição.
Foi na segunda metade da década de 2010 que ele, como muitos jovens, passou a criar e publicar suas músicas no SoundCloud. Essa plataforma online de áudio, criada em 2007 em Berlim, permite que músicos e produtores façam upload, compartilhem e promovam suas músicas de forma independente, sem depender exclusivamente dos serviços de uma gravadora tradicional. O SoundCloud foi um dos canais que impulsionaram sua descoberta, junto com redes sociais e outras plataformas digitais.
Gosto muito de ensinar o principal conceito do marketing mix, teoria criada por Jerome McCarthy e popularizada por Philip Kotler, que nos apresentou o framework dos 4 Ps: produto, preço, promoção e praça, que é a distribuição. A essência da força do conceito de McCarthy é nos lembrar que esses quatro elementos são responsabilidade direta do gestor de marketing.
O marketing não pode controlar o consumidor, o clima, a moda ou a tecnologia, entre tantas outras coisas, mas preço, produto, promoção e praça são sua responsabilidade. Cada um desses itens são decisões de marketing.
Também gosto de lembrar que distribuição, ou praça, é um ativo estratégico. Quando olhamos para o mercado de cervejas, é possível afirmar que a distribuição está entre os principais fatores de sucesso das grandes marcas. Em um mercado em que é preciso conquistar espaço em bares, supermercados e restaurantes, comunicação, preço e produto acabam tendo menos influência. Se o produto não está disponível ao consumidor, todo o resto perde força.
No passado, a distribuição era mais dependente da estrutura da indústria. Para um artista como Bad Bunny, o sucesso estava ligado a conseguir visibilidade dentro desse sistema. Era importante chegar às pessoas certas, ter apoio de selos, rádios e intermediários. Artistas independentes existiam, mas a escala era limitada. Hoje o cenário é diferente.
As plataformas de streaming popularizaram o acesso. É importante dizer que não ficou necessariamente mais fácil, ficou mais democrático e acessível. Hoje qualquer artista pode colocar sua música no mundo e ter chance de ser descoberto.
Durante muitos anos celebramos discos mais vendidos, quando o verdadeiro sucesso já estava nas músicas mais ouvidas. O consumo sempre foi mais relevante que o formato físico.
SoundCloud, Spotify e Deezer trouxeram uma nova leitura para a indústria. Elas mostraram que o modelo de distribuição mudou e que o sucesso passou a ser medido em acessos e recorrência de audiência.
No passado, se um cantor em espanhol fosse lançado mundialmente, provavelmente ficaria restrito a colônias latinas. Muitas vezes era incentivado a gravar em inglês ou fazer parcerias com artistas americanos. A indústria criava padrões baseados em pré-conceitos de mercado.
No Grammy Awards 2026, Bad Bunny teve uma noite histórica e ajudou a mudar mais um desses conceitos. Ele venceu três categorias, incluindo Álbum do Ano com Debí Tirar Más Fotos. Esse se tornou o primeiro álbum inteiramente em espanhol a ganhar o principal prêmio da cerimônia.
Essa mudança nas premiações mostra como a distribuição global ampliou o acesso cultural. Quando falamos de mercado mundial hoje, falamos também da eficiência dessas plataformas em conectar públicos e conteúdo.
Nesse contexto, quando a NFL escolhe Bad Bunny para ser a atração principal do show do intervalo do Super Bowl LX no último dia 8 de fevereiro, fica claro que a liga enxerga seu alcance global.
Os números ajudam a explicar. Bad Bunny acumula mais de 114,5 bilhões de streams no Spotify até fevereiro de 2026 e foi o artista mais transmitido da plataforma em 2025, com cerca de 19,8 bilhões de reproduções no ano.
Quando pensar em distribuição de conteúdo, vale pensar em conteúdos capazes de circular globalmente. É assim que Netflix, Globoplay, Amazon Prime, HBO Max, Disney Plus e Paramount Plus abrem espaço para produções de diferentes países.
Quando o filme Parasita venceu o Oscar de Melhor Filme em 2020, tornou-se o primeiro filme sul-coreano a ganhar um Oscar e o primeiro filme de língua não inglesa a vencer na principal categoria. Isso também é efeito de distribuição e acesso cultural.
Hoje vemos produções coreanas, turcas e de várias outras origens mais presentes no consumo global. A distribuição ampliou o acesso. E aqui entra o conceito da Cauda Longa, ou Long Tail.
Esse conceito se refere a mercados em que, com distribuição digital eficiente, torna-se viável ofertar produtos de nicho em pequenos volumes. Somados, esses nichos podem gerar mais resultado do que apostar apenas em poucos grandes sucessos de alto volume.
Além disso, muitos desses produtos têm custo menor e a exposição pode revelar novos sucessos. Com menos esforço de aposta concentrada, é possível descobrir grandes hits.
Quando olhar para os briefings que recebe, vale dedicar tempo ao marketing mix e, principalmente, não subestimar a força da distribuição na estratégia de lançamento.
Basta lembrar o impacto que Bad Bunny está causando na indústria da música com seu sucesso, e isso aposto é só o começo.
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