Gosto muito da teoria que explica que os cães se aproximaram dos humanos a partir da percepção de que teriam uma vida mais simples e facilitada. Os estudos explicam que foi na oferta de alimento, nas sobras, que esses animais começaram a se aproximar, e a convivência acabou transformando essas espécies.
A partir do convívio entre cães e humanos, uma forte relação foi criada, principalmente a partir da lealdade e do carinho desses animais. Hoje, entendo que estamos vivendo um novo período de transformação, com fortes consequências para ambos os lados.
Para fazer este texto, me vali de estudos e levantamentos de diferentes fontes, mas não encontrei nenhum estudo específico que reunisse diretamente os pontos que apresento. Também faço uma relação com um segundo tema: a mudança demográfica pela qual o Brasil vem passando, com a redução das famílias com filhos. Os dois assuntos não estão diretamente relacionados, mas os fenômenos acontecem simultaneamente, geram comportamentos que podem se aproximar e acabam reforçando algumas mudanças.
Comecei tentando estimar o tamanho da população de pets no Brasil. Cheguei a um número de aproximadamente 170 milhões de animais de estimação em nosso país em 2025, referência encontrada num estudo da ABRAS, Associação Brasileira de Supermercados, que indica como fontes o Instituto Pet Brasil (IPB) e a Abinpet.
Considerando que a estimativa oficial do IBGE para a população brasileira é de 213,4 milhões de habitantes, com data de referência de julho de 2025, eu me atrevo a prever que, num futuro próximo, a população de animais de estimação poderá ser maior que a de humanos em nosso país. Defendo minha tese com base no crescimento da população de pets e na redução da fecundidade da população brasileira. O IBGE vem apontando que a taxa de fecundidade brasileira caiu de 6,28 filhos por mulher em 1960 para apenas 1,55 em 2022 e que, ao mesmo tempo, os casais sem filhos praticamente dobraram sua participação entre as famílias.
O ponto que mais chama minha atenção é que as mesmas transformações que fazem os brasileiros terem menos filhos também nos ajudam a explicar por que os pets ganharam tanto espaço em nossas vidas.
Podemos citar a urbanização, os custos de criação dos filhos, a maternidade mais tardia, as mudanças no casamento, o aumento dos domicílios menores, a maior participação feminina no mercado de trabalho, o envelhecimento da população e as novas concepções de família. Como já disse, uma coisa não está relacionada à outra, mas elas se somam.
Destaco uma pesquisa acadêmica sobre as chamadas “famílias multiespécies”. Este estudo com casais sem filhos encontrou participantes que consideravam seus animais membros da família e alguns que os tratavam como filhos. O ponto é que o animal está ocupando um espaço cada vez mais central nas decisões familiares, emocionais, sociais e financeiras de seus tutores.
Apenas reunindo alguns resultados de diferentes estudos, vemos insights sobre essas mudanças de comportamento:
47% dos tutores já deixaram de ir a um lugar porque ele não aceitava pets (Opinion Box – 2026, com 1.078 tutores).
80% dizem gastar o que for necessário para manter o pet seguro e saudável, e 69% consideram insuficientes as leis brasileiras de proteção animal (Opinion Box – 2026, com 1.078 tutores).
50,3% dos cães passam a maior parte do tempo dentro de casa. Entre os gatos, esse comportamento atinge 71,4% (Estudo CVA Petcare 2026, com 4.032 consumidores e tutores). O mesmo estudo apontou que o gasto mensal médio calculado chega a R$ 690 para cães e R$ 574 para gatos.
51% da Geração Z e 48% dos millennials concordam que um pet pode funcionar como uma espécie de experiência anterior a ter filhos. 94% dizem que ter um pet é importante para sua realização pessoal (“Generational Pet Parenthood 2026”, da Rover, baseado em pesquisa com 1.000 tutores de pets nos EUA).
Temos que ter cuidado em relacionar a redução da fecundidade brasileira com a maior presença de animais domésticos nas famílias. São fenômenos diferentes, mas o fato é que eles caminham juntos. O estudo da Rover citado acima aponta que os millennials entrevistados foram significativamente mais propensos do que gerações mais velhas a declarar que adiaram a chegada dos filhos e tiveram um pet em seu lugar naquele momento.
A maior presença de pets acaba gerando alguns efeitos. Os tutores vêm reduzindo suas saídas para não frustrar seus pets (estudo acima da Opinion Box). Podemos dizer que a matilha está cada vez mais unida e que tutores evitam isolar seus animais.
Outro complicador é que o convívio entre famílias com pets é mais complexo, pois cachorros e gatos têm maior dificuldade de relacionamento, impedindo, em alguns momentos, o convívio e, novamente, reforçando a decisão pelo isolamento.
Nosso papel como publicitários não é criticar o comportamento, mas entender como ele influencia o consumo. O que acontece com o consumo quando o pet deixa de ser apenas um animal doméstico e passa a ocupar posição central na família?
Entendo que uma boa resposta para isso foi a maior aceitação de animais de estimação, em especial gatos e cães, em voos domésticos e internacionais junto de seus tutores, e não mais despachados como carga.
Hoje, vemos também hotéis especializados em receber hóspedes com seus pets. A diferença é que esses empreendimentos não recebem hóspedes sem animais, uma mudança interessante, mas que, novamente, promove um convívio apenas de famílias com pets.
Durante anos, tivemos um mercado olhando para o consumo infantil. Escolas, serviços educacionais, brinquedos e todo tipo de entretenimento. Hoje, já vemos mudanças nas praças públicas, com áreas para cães.
Se temos uma boa notícia com o aumento do consumo dos tutores, teremos uma redução de consumo no mercado infantil, pois é pura estatística: se temos menos crianças, teremos menos crescimento nesses mercados.
A resposta a isso é o que vemos começar a acontecer propostas em alguns países, como o Chile, onde o governo busca estimular casais a terem filhos a partir de algum tipo de benefício financeiro.
Difícil prever tudo o que esses comportamentos podem gerar no futuro. O fato é que vemos uma priorização dos pets, e isso acaba mudando o consumo dos tutores. Isso abre questões muito boas para a publicidade: viagens, automóveis, imóveis, restaurantes, hotéis, companhias aéreas, shopping centers, seguros, saúde, entretenimento e até serviços financeiros passam a ter de considerar o animal nas decisões de seus consumidores.
Começamos a história imaginando que os cães se aproximaram dos humanos porque isso tornava a vida deles mais fácil. E agora, séculos depois, talvez sejamos nós que estejamos reorganizando nossas vidas em torno deles.
Gostou do conteúdo? Acesse nossa home e veja mais.
Acompanhe também nosso perfil nas mídias sociais.





