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Fonte: Reprodução Pexels

Não automatize o seu talento

Em tempos de Inteligência Artificial, a velocidade parece ter se transformado na grande solução de tudo. Dou a mão à palmatória, pois, recentemente, fiz um cartão de aniversário para minha esposa em segundos. Eu me considero um bom redator, mas não sou designer. Talvez por isso tenha ficado tão feliz ao ver o cartão pronto rapidamente.

Para escrever este artigo, entre pesquisa, produção, revisão e finalização, eu devo ter consumido mais de duas horas. Chego a ler e reler o texto dezenas de vezes, pois isso é parte do meu processo criativo. Imagino que muitos, lendo isso agora, devem estar pensando que eu poderia ter feito um simples prompt e, em segundos, teria o artigo pronto.

Logo no início da expansão da IA, conversei com meu amigo Guilherme Crespo, um redator de ofício, e ele me provocou muito com um comentário: eu prefiro não usar inteligência artificial no meu trabalho, pois entendo que isso pode me deixar preguiçoso.

Ele estava demonstrando um ponto básico da tecnologia. A humanidade só pensou em criar a roda porque alguns de nós estavam cansados das longas distâncias a pé. Em essência, criamos tecnologia para facilitar nossas vidas. Isso é totalmente natural.

Entendo que hoje seja possível treinar uma IA a partir da história, personalidade e acervo de um cantor e pedir que ela crie uma canção ao seu estilo. Algo possível, mas será que vale a pena?

Podemos, em breve, ser impactados por prompts ou agentes que nos permitam preparar uma nova música ao estilo dos Beatles. Fico pensando na implicação de tudo isso na produção cultural. Estou pensando no impacto para o futuro.

Não sei você, mas a tecnologia sempre me perturba, pois, de início, temos uma consciência clara de seu uso, mas, com o tempo, ela se transforma em ferramenta e acaba incorporada ao nosso dia a dia. Deixamos de perceber sua influência e acabamos não conseguindo mais separá-la do processo.

Quando esperamos, num restaurante, por um prato que está sendo preparado naquele momento, o período que antecede a degustação deve ser um momento prazeroso. O fast food nos trouxe uma opção rápida e fácil, mas não podemos comparar as duas coisas. São diferentes expressões sobre uma mesma base.

Entendo que isso vale para a música, para a poesia e para qualquer tipo de produção. Entendo que vale para qualquer ramo de atividade. Podemos fazer as coisas rapidamente, mas, em geral, o tempo pode nos levar a resultados melhores.

A questão é que, hoje, o espírito do nosso tempo está contaminado por essa necessidade de urgência. Fico me perguntando se isso, de fato, faz sentido. Precisamos das coisas com tanta velocidade ou só nos falta paciência?

Hoje vemos filmes serem feitos com IA numa velocidade absurda. Em contrapartida, grandes produções do cinema são feitas ao longo de anos. Fico pensando na influência que uma coisa pode ter sobre a outra.

Não sou contra a agilidade que a IA nos trouxe. Entendo que ela terá seu lugar e espaço, mas tenho medo da influência que sua facilidade pode exercer quando comparada ao processo tradicional de produção.

O cartão para minha esposa ficou lindo, ela adorou. Mas a produção deste texto leva tempo e dedicação. Tenho me disciplinado a aceitar esse processo e a investir tempo para que as coisas possam acontecer, pois eu amo escrever.

Se toda a sua expectativa estiver voltada para a velocidade, se a rapidez se transformar em sinônimo de produtividade, entendo que estejamos renunciando a coisas incríveis.

Tenha paciência. A automação não pode ser a resposta para tudo. Negocie com seu cliente ou com seus superiores e peça mais tempo. A espera pode retardar o processo, mas a degustação compensará tudo.

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