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Fonte: fotograma - Hitler | Folha de São Paulo | W/Brasil

O risco do eco da inteligência

Quando fazemos uma pergunta a uma inteligência artificial, recebemos uma resposta que muitas vezes parece original, inteligente e conclusiva. O engraçado é que isso nada mais é do que treino. As ferramentas de inteligência artificial foram treinadas para conhecer padrões, relações e estruturas presentes no conhecimento humano.

Chamo de eco da inteligência o risco de usarmos ferramentas cada vez mais inteligentes apenas para ouvir, de formas diferentes, aquilo em que já acreditamos. Em essência, ferramentas de IA são rápidas, mas combinam e repetem padrões que já conhecemos, aprendem conosco e, portanto, podem repetir nossas ideias, conceitos e preconceitos.

Vou aproveitar o conceito, ou a metáfora, da câmara de eco (Echo Chamber), citada por diversos autores. Ela está muito presente nos livros do jurista e pesquisador Cass Sunstein, especialmente em Republic.com (2001) e, posteriormente, Republic.com 2.0 (2007).

Sunstein nos provoca com algo muito comum nas redes sociais: “Veja apenas o que você quer ver, ouça apenas o que você quer ouvir, leia apenas o que você quer ler. No ciberespaço, já temos a capacidade de filtrar tudo, deixando de fora aquilo que não desejamos ver, ouvir ou ler.

Decompondo os conceitos, temos:

Efeito da verdade ilusória: quanto mais encontramos uma afirmação, mais familiar ela se torna, e essa familiaridade pode aumentar nossa percepção de que seja verdadeira.

Viés de confirmação: tendemos a procurar e valorizar informações que confirmam aquilo em que já acreditamos.

Câmara de eco: o ambiente informacional reforça repetidamente determinadas crenças e reduz nosso contato com posições divergentes.

Eco da inteligência: usamos uma ferramenta capaz de ampliar nosso pensamento, mas acabamos utilizando-a para receber versões cada vez mais sofisticadas das nossas próprias crenças.

Durante muito tempo na minha vida, convivi com um querido amigo que pensava muito diferente de mim. Nossa amizade estava muito acima das nossas crenças. Ambos, penso eu, tínhamos profunda admiração um pelo outro, e isso construía um respeito que nos mantinha unidos, mesmo discordando de quase tudo.

Devo dizer que muitas das nossas conversas me permitiam explorar profundamente minhas convicções, pois nenhum de nós tinha o interesse de convencer o outro. Nós apenas nos sentíamos tranquilos em expor nossas opiniões.

Hoje, pelo contrário, as redes sociais podem se transformar em verdadeiras câmaras de eco e acabar criando um eco da inteligência. Provavelmente você já ouviu a frase: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. A contradição interessante é que ela é atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista, mas não temos evidências de que ele tenha dito isso.

O conceito seguiu forte, mesmo sem essa comprovação da autoria, e talvez demonstre o tema deste artigo, pois a repetição da atribuição da frase ao autor pode ter ajudado na perpetuação de seu conceito.

O importante aqui é entender que a repetição é uma técnica comum que usamos para influenciar pessoas na propaganda. Gosto sempre de lembrar que, quando temos um filme publicitário fraco, é quando mais precisamos da repetição. Um bom comercial pode ter pouca exposição, pois gera uma memória mais fácil. A repetição acaba conquistando espaço na nossa mente.

O viés de confirmação nos leva a preferir algo que confirme nossas crenças, que nos seja familiar. Em geral, isso pode ser reforçado pela câmara de eco, pois somos influenciados pelas pessoas com quem convivemos e pelas fontes que escolhemos. Um círculo vicioso que nos leva a manter um padrão. A repetição dessas ideias nos priva do contraditório e, muitas vezes, do novo.

O risco do eco da inteligência aparece quando nos acostumamos com uma ideia simplesmente pelo fato de ela ser comum, recorrente ou porque está presente em nossa rotina. Como já a ouvimos muitas vezes, ela começa a nos parecer familiar e, potencialmente, mais verdadeira.

A experiência do confronto com o contraditório deveria ser algo importante na construção do nosso conhecimento, mas nem sempre somos estimulados a isso. Acabamos buscando o conforto das coisas que já aceitamos como certas.

Entendo que, em vez de simplesmente rejeitar, deveríamos nos expor a informações que contradizem nossas crenças. Gosto de lembrar que a novidade é sempre algo estranho. O novo, em geral, demora a fazer sentido, pois nem sempre estamos preparados para ele.

O risco é que vamos criando câmaras de eco. Espaços confortáveis que nos ajudam a viver sem o incômodo da contradição, mas que também podem empobrecer nosso pensamento. No uso das ferramentas de inteligência artificial, podemos reforçar esse fenômeno, pois essa tecnologia pode entender nossos gostos e nossas crenças e, portanto, nos devolver ideias compatíveis com aquilo que buscamos, com pequenas variações. A prova é que, em determinados trabalhos, elas chegam até mesmo a nos oferecer diferentes opções a partir de um mesmo ponto e, assim, vão pedindo nossa confirmação, um teste para entender cada vez mais nossas preferências.

Procuro ampliar minhas fontes de informação. Um ponto importante é não me limitar a uma fonte de dados ou meio de veiculação. Quando penso em notícias, busco diferentes noticiários, diferentes formatos. No contato direto com as pessoas, entendo que é fundamental ouvir quem pensa diferente de nós. Estou sempre buscando a contradição, o novo e o diferente. Não que precise disso para compor minhas convicções, mas esses elementos melhoram muito minhas ideias.

De forma prática, lembro que os melhores projetos de que participei em minha carreira foram frutos da construção de conhecimento entre diferentes pessoas. Indivíduos com diferentes experiências e vivências. Não se produz nada novo sem contradição, sem a busca por diferentes pontos de vista. Quando ficamos restritos a um mesmo olhar, a repetição é o resultado mais esperado.

Fecho com um clássico da nossa propaganda: o filme “Hitler”, criado para a Folha de S.Paulo, que bebe na base dos conceitos acima para construir um posicionamento incrível.

O filme, realizado pela W/Brasil em 1987, é um dos filmes mais premiados da história da nossa propaganda, tendo, inclusive, ganhado o Leão de Ouro em Cannes em 1988. Ele teve Washington Olivetto como diretor de criação, Nizan Guanaes como redator, Gabriel Zellmeister na direção de criação e Andrés Bukowinski na direção do filme.

Sou apaixonado por bons textos, e o copy deste anúncio é incrível. Gosto muito de “é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”, um conceito que conversa com tudo que apresentei no artigo.

Inteligência, para mim, está muito mais nas perguntas do que nas respostas. Quem já tem todas as respostas já se privou de novos conhecimentos. O contraditório nos traz novas perguntas, que nos desafiam a buscar respostas que desafiam nosso conhecimento.

Se você quer criar trabalhos como esse acima, amplie seus conhecimentos. Repertório é o que nos diferencia. Um bom profissional sabe combinar diferentes fontes e experiências.

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