Depois de seis meses acompanhando a produção nacional, estou convencido de que temos produzido muita coisa boa neste ano. Você pode dizer que a média é ruim, e vou concordar, mas, fazendo esta análise, percebi que, apenas com o seu consumo de mídia, é provável que você não tenha visto a grande maioria destes filmes que listo aqui.
Neste mês, selecionei 14 filmes de qualidade numa primeira etapa, mas, para este destaque final, escolhi apenas 11, sendo que dois são da mesma campanha, que entendo serem bons exemplos do nosso potencial criativo. Ainda temos uma forte influência da Copa do Mundo nos temas, mas, neste mês, tivemos dois filmes falando de futebol feminino, que pegam carona no consumo do Mundial de Futebol.
Neste mês, destaco uma forte base conceitual. Entendo que ela vem do apoio do trabalho das equipes de planejamento dessas agências, um suporte fundamental para o desenvolvimento de grandes ideias. Parabéns aos times envolvidos.
Acabei destacando dois trabalhos e, como sempre faço, fiz uma análise classificando-os com bronze, prata, ouro e Grand Prix, para dar um peso de avaliação ao rolo de filmes do mês. Confira minhas escolhas.
Prata
The Escape – Nissan Kicks – Lola TBWA
Uma ideia que surpreende, e este é o caso do novo filme da Nissan. Uma superprodução usando a temática dos zumbis, forma divertida que a Lola TBWA encontrou para mostrar as novidades do Nissan Kicks.
O roteiro combina a ação de um ataque zumbi, intercalando as funcionalidades do veículo destacadas com textos na tela. Assim, a partida remota, o assistente inteligente de frenagem frontal, o painel digital multimídia de 24,6″ e o sistema de auxílio à condução ProPILOT foram integrados ao roteiro, que leva ao fechamento que posiciona o produto: um novo conceito de SUV.
Para deixar o filme ainda mais divertido, a trilha que encerra a peça é a música Thriller, de Michael Jackson. Uma ideia que surpreende em uma superprodução.
Prata
Joga Solto – Nike – Wieden+Kennedy São Paulo
João Gomes, futebol brasileiro e Nike. Vou ser polêmico ao afirmar que é uma combinação perfeita. Mas me permita explicar: já faz tempo que o Swoosh faz parte do nosso manto, faz tempo que a Nike veste o Brasil e faz tempo que a marca referencia o nosso talento.
Essa campanha apenas recupera pontos dessa construção. Gosto de ver a referência ao “Joga Bonito”, que já foi tema de uma campanha da marca em outra Copa. O filme é construído com uma direção de arte simples, que lembra uma colagem, algo artesanal, que se confunde com as imagens e ajuda a construir a identidade do futebol brasileiro. É uma mistura de diferentes campos, bolas e jeitos, que nasce simples, sincera e, acima de tudo, criativa.
É nessa hora que a narração de João Gomes brilha, potencializada por um texto brilhante que se confunde com a simplicidade do cantor. O filme cresce com preciosidades como: “A real é que nosso futebol nasceu livre demais”, “Jogando bonito” ou, melhor ainda: “Foi jogando desse jeito que o Brasil virou a cara do futebol”.
Este filme é um verdadeiro manifesto para lançar o conceito do “Joga Solto”. Fico pensando se a má vontade com a Nike vai continuar, mas, me desculpem os críticos, se há algo que eles sabem fazer é referenciar o nosso futebol.
Prata
2007: Pelo Direito ao Topo – IBBF – Ogilvy Health NY
O filme do IBBF – Instituto Brasileiro de Futebol Feminino conta com o apoio do sportv para destacar um grande problema da modalidade: a dupla jornada das nossas atletas.
Um roteiro que mistura cenas de jogo com jogadoras uniformizadas, que, aos poucos, vão se transformando em profissionais com seus outros uniformes, para destacar a dura realidade dessas atletas. A direção de arte opta por cenas que alternam o começo da manhã com a noite, e o conceito se revela: 70% das jogadoras de futebol precisam de um segundo emprego para sobreviver.
O texto apresenta as consequências dessa realidade e faz o convite à ação: “Vamos mudar esse jogo?”. Uma importante reflexão quando estamos a menos de um ano de sediar uma Copa do Mundo Feminina em nosso país.
Ouro
Mercado Livre – Gut São Paulo
Gosto de boas ideias e, quando falamos de comerciais sobre Copa do Mundo neste ano, o sarrafo está bem alto. Mas Mercado Livre e GUT São Paulo fizeram um golaço.
Numa construção repleta de detalhes sutis, os primeiros acordes de Show Tem Que Continuar, o mural do Fenômeno desgastado e o noticiário dão o tom de um roteiro muito bem construído, que só cresce a partir da pergunta: o Brasil ainda é o país do futebol?
Ronaldo, em uma van de entregas que traz referências a De Volta para o Futuro, reúne todo mundo para voltar a uma das nossas maiores emoções: 2002. A cena com Neymar ainda menino é um achado, mas a volta para o presente, quando o protagonista grita sozinho, é perfeita. A resposta, na voz de Ronaldo, tem todo o peso de quem de fato pode falar, em um belo texto: “Enquanto o Brasil se entregar na torcida, sempre será o país do futebol.”
E, para fechar, uma mensagem pós-marca que considero uma novidade, simples e certeira: “Bora?”.
O texto é brilhante ao se confundir com a letra da trilha sonora. A volta ao mural original e o arremate final reforçam a mensagem: nunca se esqueça, este aqui é o país do futebol.
Ouro
Vira-lata – Pedigree – Almap
A força de um conceito que dialoga com os consumidores apaixonados por seus vira-latas a partir de uma questão: “Como ser vira-lata poderia ser um sinônimo de inferioridade?”.
Um trabalho construído, provavelmente, com base no levantamento do time de planejamento, que foi buscar todo o universo brasileiro por trás dos nossos vira-latas. Gosto, em especial, dos nomes: caramelos, pretinhos e fiapos de manga.
O filme valoriza a escolha dos vira-latas num texto que relaciona o nosso “complexo de inferioridade” de uma forma a ressignificar o conceito do vira-lata: “Mas sabe o que é ser vira-lata? É ser livre, desenrolado, malemolente, arretado e único”. O texto segue brilhando, em sintonia com o planejamento: “Tá na hora de parar de acreditar que a raça de um cachorro define seu valor”.
E, para mim, o grande destaque é a criação de uma linha de produtos especialmente inspirada na nossa cultura: edição especial Caramelo, mudando seu próprio nome: “Pedigree, o orgulho de ser vira-lata, gostinho de ser brasileiro.”
Ouro
Seis Estrelas – Uber – Wieden+Kennedy SP
Ideia boa eu morro de inveja. Eu acredito que existe inveja boa, e essa ação da Uber, criada pelo time da Wieden+Kennedy, é uma dessas coisas que irritam pela simplicidade e pela grande ideia.
Confesso que me senti meio burro por não perceber que, até agora, nosso futebol era o único cinco estrelas do mundo. Não que eu não soubesse que temos cinco conquistas; eu nunca tinha feito a relação com o conceito de excelência que é ter cinco estrelas. No passado, isso era usado frequentemente na classificação de hotéis.
Quando a ideia é boa, ela só melhora. Fazer um filme que é uma porrada já seria suficiente, mas levar isso para o aplicativo e lembrar os usuários todos os dias de que agora podem avaliar com uma sexta estrela é bom demais.
A construção de tratar isso como uma atualização e a maneira como mostram nossa força, demonstrando que só o Brasil pode ter uma atualização dessas, deixa a gente no canto com chapéu de burro.
Ouro
Contrato – Vivo – Africa Creative
O novo filme da Vivo, criado pela Africa Creative para o período da Copa, reverencia a jornada do fã. A cena inicial das grades comuns na entrada de concentrações e hotéis nos liga rapidamente a esse ambiente de Copa. Gosto muito da ideia, pois aproveita apenas a música do primeiro filme, “Brasileiro Roxo”, e acaba criando uma conexão muito especial, algo fundamental para a eficiência da comunicação.
Não dá para não entrar na conversa de resultado e construção de marca, mas entendo que este é o filme que trabalha a construção da marca Vivo e sua relação com a Seleção.
Gosto da escolha do elenco. O garoto é um destaque, mas toda a definição da escolha de um campinho numa pequena cidade e o roteiro, pontuado com um pequeno texto que dá força ao filme — “Vini Jr. agora vai jogar no meu time” ou “Foi daqui que pediram reforço” — são poderosas construções que acabam colocando todos os torcedores dentro do mesmo sonho. Todos nós que torcemos estamos pedindo para o Vini jogar no nosso time.
A comunicação não pode prever resultados, mas o fato de Vini estar sendo o nosso maior protagonista acabou dando ainda mais força ao grupo. O caminho de trabalhar apenas a construção de marca é, para mim, uma escolha acertada para o período.
Ouro
Minions & Monstros – Universal Pictures – Cappuccino Digital
Como destacar seu lançamento no período da Copa, ainda mais quando seu conteúdo não tem relação alguma com o torneio? Some-se a isso o fato de esta ser a maior Copa da história, com 39 dias de competições diretas, praticamente com jogos todos os dias, salvo poucas exceções, deixando pouco espaço para outros assuntos.
A Universal Pictures e a agência Cappuccino resolveram essa questão no lançamento do filme Minions & Monstros de forma muito original. Se você não pode vencê-los, junte-se a eles.
A ideia criativa traz os ex-jogadores da Seleção Kaká e Cafu para um casting do filme, orientado por uma produtora e comandado pelos Minions para escolher monstros para o filme.
Gosto da direção dos jogadores, que produzem cenas divertidas demonstrando que são verdadeiros monstros do futebol. A entrevista para o papel acaba criando a pontuação correta para a inserção de cenas do filme, com destaque para a interação dos Minions.
A cena pós-créditos, trazida do universo do cinema para os filmes publicitários, é a parte de que mais gosto.
Grand Prix + Ouro
Pride 2026 Puro Legado – Amstel – Almap
Gosto de um trabalho que me faz ficar em silêncio, pensando. Gosto de pensar que o ponto mais importante do trabalho publicitário é entender que podemos transformar comportamentos.
Este filme da Amstel, criado e produzido pela AlmapBBDO, mostra uma família homoafetiva. Ele é corajoso e consistente com o fato de a marca patrocinar, há oito anos, a Parada LGBTQIAPN+. Entendo que aborda o tema de forma tão especial que se torna afetuoso.
Gosto da ideia, que já me impressiona por aproveitar o conceito de mudança. Nada é mais simbólico do que aquilo que vivem as pessoas que lutam pelo direito às uniões homoafetivas. No resgate das lembranças da relação entre duas mulheres, o texto traz o contexto das conquistas e brilha. Gosto da força do “chegamos”, mas o impacto maior está em: “Foi a primeira vez que a gente foi reconhecido como família”, frase que abre espaço para o conceito mais forte de todo o filme: “Por acaso alguma vez a gente não foi uma família?”.
O filme nos lembra que reconhecer o direito das pessoas de construírem suas próprias famílias não deveria depender das convicções de ninguém.
Grand Prix + Ouro
Preleção do Amanhã – Dove – Droga5 São Paulo
Um filme necessário. Um alerta sobre como temos agredido jogadoras de futebol com críticas sem o menor sentido. Esse é o meu resumo do trabalho da Droga5 São Paulo para a Dove.
Gosto sempre de tentar identificar as orientações que provavelmente nortearam o planejamento por trás de uma criação e, para mim, este é o caso deste incrível trabalho. Preleção do Amanhã é uma peça que respeita suas consumidoras. Gosto muito da direção do filme, que reúne dois grupos de jogadoras reais e cria um contraste poderoso a partir de depoimentos igualmente reais: “A gente escuta muita crítica ao nosso corpo, ao nosso jeito de jogar” ou “Já ouvi falar que meu corpo não é para o futebol”.
A escolha de levar Bia Zaneratto e Tamires, duas jogadoras vencedoras, para conversar com essas meninas é uma forma bonita e especial de incentivá-las. A direção de elenco feita com as jogadoras me encanta porque tenho a impressão de que elas não sabiam que as atletas apareceriam. As expressões parecem genuínas, o que torna tudo ainda mais poderoso. Afinal, é exatamente esse tipo de inspiração que precisamos levar para a vida dessas jovens atletas.
O conceito é resumido de forma brilhante em um dos cartões do filme: 1 em cada 2 meninas que abandonam o esporte ouviu críticas sobre o próprio corpo. Difícil não se emocionar. Difícil não gostar.
O texto segue forte com mensagens das jogadoras como: “Vocês são mulheres vitoriosas”, “Este jogo é nosso” e “O amor que vocês têm pelo futebol é imparável”. Para fechar, um último depoimento que resume bem o espírito da campanha: “Eu vou mostrar que tudo posso”.
Lembro sempre que esta é uma análise pessoal. Estabeleci algumas regras e venho selecionando filmes veiculados em qualquer plataforma desde o começo do ano. Fique à vontade para me enviar o link de algum filme que tenha sentido falta nesta lista.
Se quiser conferir as seleções de janeiro, fevereiro, março, abril e maio, confira minhas colunas aqui no CreativosBr.
Nos vemos em julho. Espero que com um pacote ainda mais legal de filmes.
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