Sou redator em essência, mas trabalhei boa parte da minha carreira como planejador e aprendi a admirar esse trabalho dedicado a reunir estudos, padrões de comportamento e leituras da nossa sociedade para ajudar o trabalho criativo. Bons filmes trabalham a grande ideia, em sua maioria, a partir de conceitos e comportamentos da nossa sociedade.
Esta semana, a Africa Creative apresentou o filme da Copa da Brahma: “Tá liberado acreditar”, um comercial de 3 minutos e 40 segundos, que estreia hoje, dia 14/5, em um comercial exclusivo da novela Três Graças, da Globo. Fiquei pensando na dificuldade de traduzir um conceito que não caia no tradicional ufanismo ou, como diz a expressão, “chover no molhado”.
Quando olhamos as pesquisas, temos números distintos. Enquanto dados da Kantar Brasil apontam que 77% dos brasileiros dizem que pretendem acompanhar a Copa, um número extremamente positivo, uma outra leitura possível é lembrar que aproximadamente 46 milhões de brasileiros talvez nem assistam aos jogos, mas o fato é que eles não são o alvo desta comunicação.
Levantamentos da Ipsos Brasil e do Datafolha trazem outro elemento para essa conversa, pois demonstram uma queda no entusiasmo emocional pela Seleção. Algo fácil de entender. Estamos há 24 anos sem uma conquista e, como bem brinca o filme, os pessimistas tendem a acreditar que serão pelo menos 28 anos.
Tentando fazer o trabalho do planejador e me afastar um pouco da emoção, o fato é que temos um consumidor exigente, acostumado com conquistas. Nossa seleção está sempre entre as favoritas, e a cobrança é algo muito natural.
Gosto de provocar os pessimistas com uma brincadeira. Difícil não é criar um conceito para um filme que estimule o povo brasileiro. Complicado mesmo seria criar para a Escócia, que participou de apenas nove Mundiais e volta a uma Copa depois de 28 anos de ausência. Após o sorteio, ainda teve a infelicidade de cair na chave do Brasil. Para ser mais correto, uma verdadeira maldição, pois é a quinta vez que eles caem na chave da seleção brasileira. Além deste Mundial, isso aconteceu em 1974, 1982, 1990 e 1998. O melhor resultado deles foi justamente um empate sem gols, em 1974, contra o Brasil.
Imagine criar uma campanha para uma seleção que nunca passou da primeira fase. Tente aplicar o conceito do nosso filme, “Tá liberado acreditar”. Se você me considera louco, lembro da campanha da Fox Sports para o mercado americano, que imaginava os Estados Unidos campeões do mundo em uma final contra o Brasil.
Como bem nos ensina o conceito criado pela Africa Creative para a Brahma: “Tá liberado acreditar”.
Gosto da forma como o comercial usa nossas conquistas para inspirar esse sentimento. O comentário inicial dos dois torcedores, “você fala isso aí, começa a Copa e você fica todo empolgado”, para mim é a base da construção do conceito, pois é muito comum perceber o clima de Copa. Para mim, o grande termômetro continua sendo o álbum de figurinhas. O filme da Brahma quer provocar este clima.
Por outro lado, não podemos desprezar os sinais. A Brahma apostou em Ronaldo Nazário e Carlo Ancelotti. A cervejaria não usou nenhum jogador da atual seleção, talvez em parte pela indefinição do time titular, mas também por uma certa falta de identidade entre nossa atual geração de craques e o povo brasileiro.
Tenho acompanhado as ações e apenas Vinícius Júnior aparece de forma constante em campanhas publicitárias. Ronaldo Nazário acaba sendo um nome de maior destaque, e talvez isso ajude a explicar esse momento mais complicado.
Nosso trabalho como publicitários é ler esses insights que o planejamento nos oferece para, a partir do conceito, criar a ideia criativa. Nesse ponto, gosto muito do filme, porque ele resgata a alegria do nosso futebol, algo que não temos visto com frequência nos últimos jogos.
É um filme cheio de referências, da narração de Silvio Luiz no início aos lances da seleção alternados com cenas narradas por José Silvério. Não sei de qual parte gosto mais: da cena do corte de cabelo de Ronaldo Nazário, do pênalti batido pelo dono da Trattoria do Roberto ou da cena final de Carlo Ancelotti recebendo a bola com a manchete alterada, o que nos leva a um fechamento perfeito: “Aqui é Brasil, tá liberado acreditar”.
Destaco também a escolha da trilha, “Tamanco no Samba”, porque propaganda boa também é propaganda de repertório. Quando alguém diz que fulano “samba no tamanco”, está elogiando um samba menos performático e mais vivido.
Gosto da forma como o filme constrói essa percepção. Da provocação inicial à seleção de imagens. A escolha para que a cena do título seja a de 1994, justamente a mesma espera de 24 anos, ou o fato de que durante todo o filme, apesar do descrédito, estamos sempre correndo atrás da bola.
O comercial deixa um recado inteligente. Ele não define que vamos ganhar. Ele autoriza sonhar. Traz referências para lembrar que temos uma grande tradição. Um filme de muita qualidade. Para mim, um dos melhores comerciais feitos sobre esse tema este ano. Uma produção incrível, que reforça muito a criatividade brasileira.
Me desculpem os escoceses, mas nós vamos continuar acreditando. Se os americanos sonham com uma final contra o Brasil, nós queremos construir mais história e voltar a gritar: campeão também, portanto eles que se cuidem.
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