Ter tempo livre suficiente para descansar, praticar um hobby ou simplesmente não fazer nada tem se tornado um privilégio para poucos brasileiros. Matéria recente da Forbes Brasil chamou o tempo de novo luxo, justificado pelo fato de que 6 em cada 10 brasileiros têm no máximo três horas livres por dia.
Perguntei isso na minha rede e o resultado foi ainda pior. No meu caso, 7 em cada 10 têm no máximo três horas livres por dia, e três desses têm menos de uma hora. Algo que, para mim, soa totalmente normal quando pensamos que muitos têm filhos e acumulam responsabilidades domésticas em casa.
Entendo que essa sensação coletiva de cansaço é real e facilmente explicável. Em grande parte, ela é psicológica e estrutural, não apenas física. Estamos muitas vezes deitados num sofá, largados, mas a fadiga é mental. Hoje a mente decide demais, compara demais, responde demais e, consequentemente, se explica demais, se justifica demais. Pesquisadores chamam isso de sobrecarga cognitiva. Podemos até terminar o dia sem ter feito tanto esforço físico, mas com o cérebro em curto-circuito.
Não sei você, mas há horas em que eu não quero decidir nem o que vou comer. Se alguém fizer isso por mim, é melhor.
Outro indicativo dessa exaustão é que muitos de nós não desligam de verdade. Hoje somos acionados a qualquer momento. Para a grande maioria, o celular já se transformou numa extensão do corpo, e essa dependência nos leva a responder mensagens a qualquer hora do dia.
Um sintoma disso é ver pessoas respondendo mensagens durante um jantar com amigos, em um show ou mesmo dentro de um cinema, durante o filme. Esse senso de urgência é um sinal de que não conseguimos desligar mais e, sem o desligamento mental, vivemos em um modo de atenção parcial contínua, portanto, sem descanso.
Para complicar vivemos em cidades com um número enorme de estímulos que nos fadigam, com telas em quase todos os ambientes. Sinto falta de silêncio mental, de experiências sem estímulos constantes.
Penso que esses são alguns dos sintomas que ajudam a explicar a sensação de exaustão que vivemos. Mas entendo também que parte desse cansaço nos persegue porque, até nas horas de repouso ou descanso, criamos tarefas não intencionais, ou mesmo não objetivas, que passam a ocupar nosso tempo.
Acho interessante quando mapeamos como estamos usando o pouco tempo livre que temos. Percebemos que, em grande parte, ele é dedicado a formas de lazer intensamente passivas, como maratonar séries ou rolar o feed nas redes sociais. Artigos recentes apontam que isso nem sempre resulta em recuperação emocional significativa. Muito pelo contrário: essas atividades podem deixar a pessoa no mesmo nível de fadiga, ou até pior. Isso ocorre porque não oferecem envolvimento significativo, aprendizado, interação social ou descanso cognitivo verdadeiro.
Entendo que, para mim, o que transforma o tempo livre em benefício é exatamente o prazer que ele me dá. Aprendi também a ressignificar momentos “mortos”, como o tempo de espera em uma recepção, seja de médico ou para fazer um exame. Me acostumei a ter um bom livro por perto ou simplesmente meus fones para ouvir música.
Foi nessa linha que me deparei com um conceito novo, ainda com nome gringo, chamado Leisure Crafting. Em uma tradução literal, podemos chamar de “artesanato do lazer”, mas, para dar um sentido mais adequado, prefiro o termo moldar o tempo livre.
Vejo isso com certa preocupação, pois a essência do tempo livre é justamente perder tempo ou, como dizemos, jogar conversa fora, sem preocupação. Tive um período da minha vida em que o tempo livre era muito escasso, e isso me ensinou muito sobre a exaustão de tentar aproveitar cada minuto criando tarefas.
Tenho receio das rotinas que criamos, verdadeiros rituais, pois nada é mais cansativo do que a repetição. Muitas delas pouco têm a ver com qualidade ou bem-estar e estão mais próximas de hábitos automáticos e adaptações.
Acredito que a desconexão é uma necessidade. Atividades presenciais, que exigem nossa participação ativa, tendem a nos trazer mais prazer. Não acredito que uma nova técnica vá resolver isso sozinha, mas entender como estamos nos cansando é fundamental.
Cuide do seu tempo livre.
Cuide da sua saúde mental.
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