A pesquisa Horizonte Comum, do Instituto PROA, oferece um diagnóstico claro sobre o mercado de trabalho. Há uma geração talentosa, plural e conectada à cultura brasileira, pronta para contribuir. Há também empresas que afirmam buscar inovação e diversidade. Entre esses dois pontos existe um vazio que não é apenas social. É estratégico.
O estudo mostra que os jovens chegam ao mercado com alta carga emocional, baixa previsibilidade de carreira e barreiras concretas de entrada. A principal delas é a educação. A indústria publicitária ainda opera com um filtro silencioso que privilegia trajetórias universitárias de primeira linha. Isso cria dois mercados em um só. De um lado, quem passa pelas instituições reconhecidas e acessa redes de relacionamento, professores influentes e programas de estágio competitivos. De outro, os jovens da periferia, que vêm majoritariamente da rede pública e encontram nos cursos técnicos o caminho possível para entrar na publicidade.
Esse ponto é central. A barreira educacional não está apenas no diploma. Está no acesso ao ecossistema. A maior parte das oportunidades mais visíveis no setor nasce de dentro de ambientes onde networking, visibilidade e reputação são moeda de troca. Quem vem da periferia chega com repertório cultural vivo, mas distante dos espaços que conectam talento a vagas reais. A exclusão não aparece no discurso das empresas, aparece no recrutamento.
O impacto dessa distância é econômico. Uma indústria homogênea tende a produzir soluções previsíveis, pouco conectadas ao Brasil contemporâneo. A cultura que movimenta consumo hoje é urbana, híbrida, periférica e digital. Marcas disputam território simbólico, não apenas audiência. Quando a indústria não reflete essa pluralidade, perde competitividade. A inovação dentro da publicidade não se resume à tecnologia ou inteligência artificial. Ela depende da capacidade de integrar múltiplas perspectivas.
Existe um caminho imediato para reduzir esse abismo. Ele passa por educação e por gestão. A APP Brasil tem priorizado o fortalecimento do ensino técnico, especialmente da rede pública, por entender que essa é a porta de entrada mais democrática e rápida para formar profissionais com repertório cultural amplo e competências aplicáveis desde o primeiro dia. Esses jovens chegam às empresas com leitura real de comportamento social e linguagem contemporânea, exatamente o que a comunicação precisa.
Mas contratar não basta. Inclusão não é promessa institucional. É política de carreira. Exige líderes preparados para desenvolver novos profissionais, estrutura para que trajetórias distintas sejam valorizadas e um ambiente em que a vulnerabilidade não impeça crescimento. Empresas que avançam nesse caminho já entenderam que diversidade não é favor social. É investimento em performance. Times diversos são mais criativos, erram menos e interpretam melhor o país onde as marcas competem.
O que a pesquisa Horizonte Comum fez foi iluminar o mapa do abismo. Ela mostrou que o talento existe, mas está fora do radar tradicional. Mostrou que o discurso sobre diversidade não está alcançando a prática. Mostrou que a indústria celebra o futuro, mas ainda opera com filtros do passado. E mostrou que o potencial de transformação está menos em novas tecnologias e mais em novos caminhos de acesso.
O futuro da publicidade brasileira não será definido pelo próximo hype tecnológico. Será definido pela capacidade das lideranças de integrar o talento que hoje permanece invisível. Ignorar esse contingente deixou de ser um dilema ético. Tornou-se um erro de gestão. A questão agora está nas nossas mãos. Ou seguimos falando sobre inovação sem mudar os mecanismos de acesso, ou construímos a ponte que transforma diversidade social em vantagem competitiva.
O talento está disponível. O mercado diz que quer acessá-lo. Falta criar as condições para que ele chegue.
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