Agora ele vai entrar no carro que está todo batido e, em seguida, vai arrancar em alta velocidade. Os moradores do perigoso bairro madrilenho olharão entre si, boquiabertos. Tirso é um veterano de guerra e agora ele tem pressa para ir atrás de Irene, sua neta que flerta com o crime a todo momento.
Acima, relato mais um episódio da série espanhola Entrevías, disponível no catálogo da Netflix. Eu saberia dizer de cabeça cada segundo de cada episódio da primeira e da segunda temporada da série. Se eu gostei? Confesso que sim. Se eu tenho boa memória? Talvez, mas também é pelo fato de que não ando encontrando nada muito bom na plataforma. Aí assisto Entrevías de novo!
E isso nem é uma característica só desse streaming, viu? Netflix, Amazon, Disney… são dezenas de catálogos infinitos e algoritmos pressionando por novidades, e a carga mental para escolher algo novo se tornou um custo. Eu gasto um tempão atrás de algo legal e nada. Não sei se tu concorda comigo, mas a sensação que tenho é que dar play em uma série já conhecida elimina o risco da decepção e inclusive o esforço de processar uma nova narrativa. Estou ficando velho?
Sei lá, mas parece que reassistir à mesma produção funciona como um “abraço emocional”, sabe? Saber exatamente o que vai acontecer diminui até a ansiedade e proporciona previsibilidade — algo escasso no dia a dia, ao menos no meu.
O que me conforta é que talvez eu não esteja sozinho. Pra escrever esse texto, fui buscar algumas referências.
Estudo da Nielsen mostra os programas mais vistos globalmente no primeiro semestre de 2026. Quer tomar um susto? Produções consolidadas e que a gente conhece há um tempão lideram com folga. Séries como Grey’s Anatomy (~20,4 bilhões de minutos assistidos) e The Big Bang Theory (20,3 bilhões de minutos assistidos) rivalizaram direto com os maiores lançamentos originais. Vai vendo!
Também encontrei uma matéria da Forbes em que trata da fadiga do streaming, causado por essa sobrecarga, onde “os usuários estão preferindo ter mais experiências de produto ou serviços que sejam mais personalizados e, cada vez menos, estão escolhendo passar seu tempo zapeando no streaming para saber qual filme ou série vão querer assistir”.
No fim das contas, essa ideia doida de assistir ao lançamento do momento no streaming só para ter assunto virou um luxo caro para a nossa energia mental. Se parar pra pensar, o streaming acabou assumindo o papel da velha e querida TV aberta: uma fonte de companhia previsível, que não nos cobra atenção total nem o risco da decepção enquanto a vida acontece.
Por isso, se você aí que me lê também passar meia hora navegando pelo catálogo para acabar dando play no mesmo episódio pela décima vez, em busca de um velho favorito, fique em paz. Não é preguiça e nem é a idade chegando. Espero! É só legítima defesa cognitiva em um mundo barulhento demais.





